Comunicação para a Coexistência Humano-Fauna

Em meio à avalanche das más notícias da pandemia de Covid-19, algumas estórias inspiradoras envolvendo animais selvagens, ilustradas com fotos e vídeos, ganharam destaque nas redes sociais. O retorno dos cisnes e golfinhos aos canais de Veneza foi uma delas. Animais selvagens estariam ocupando também as ruas, praças e quintais de algumas cidades, agora vazias de gente em virtude da quarentena. Isso seria um sinal de resiliência da natureza, embora em alguns casos excepcionais fosse resultado direto da ação do homem, especificamente do Vladimir Putin, presidente da Rússia, que teria mandado soltar 500 leões como uma forma a mais – e, convenhamos, bem convincente – de incentivar os cidadãos do seu país a ficarem em casa. Essas notícias ‘viralizaram’ nas redes sociais nas últimas semanas. Elas são, no entanto, falsas!

Os cisnes da postagem sempre estiveram nos canais de Burano, uma ilha na área metropolitana de Veneza, e os golfinhos, na verdade, foram filmados na Sardenha, a centenas de quilômetros dali. Já a foto do leão do Putin caminhando numa rua de cidade grande teria sido feita na África do Sul em 2016, durante a produção de um filme local.

Notícias falsas – ou fake news – envolvendo animais selvagens não são uma invenção do momento. Animais carismáticos sempre foram alvo delas. No Brasil, nenhum animal deve ter circulado mais na forma de notícia falsa e sensacionalista do que a onça-pintada, como no vídeo em que ela aparece diante de uma câmera de segurança em um condomínio em Manaus e, invadindo sorrateiramente o quintal de uma casa na escuridão da noite, ataca e mata o pobre cachorro que dormia. Este vídeo viralizou no Brasil, claro, embora se tratasse na verdade de um leopardo na Índia! Independentemente da veracidade dessa notícia, é muito provável que o caso tenha reforçado o medo e a intolerância às onças entre os que já nutriam esses sentimentos, justificando atos de hostilidade contra o animal e agravando os conflitos de opinião entre os que priorizam os interesses das pessoas afetadas e os que advogam pela proteção dessa espécie ameaçada.

Os casos acima são apenas alguns exemplos de como nossos interesses acerca dos animais influenciam a maneira como produzimos e recebemos mensagens – isto é, nos comunicamos – sobre eles e de como, na direção oposta, essas mensagens determinam nossas opiniões e comportamentos em relação aos animais. De fato, desde os primórdios da linguagem por meio de sons e imagens que nossa relação com a fauna e comunicação são fenômenos indissociáveis. Porém, se antes nossas opiniões sobre a fauna e sobre como lidar com ela eram moldadas pela interação com vizinhos e parentes próximos – além, claro, do contato direto com os próprios animais -, com o advento da internet, e em particular da chamada web 2.0, em que os próprios usuários geram e organizam o conteúdo principalmente por meio das redes sociais, qualquer pessoa em qualquer lugar do mundo passou a influenciar e ser influenciada em relação à fauna. O papel da comunicação ganha assim uma escala sem precedentes de alcance e velocidade: a comunicação nunca foi tão importante na pesquisa e na gestão das relações entre humanos e fauna.

Profissionais dedicados à fauna silvestre reconhecem a importância da comunicação. É crescente, por exemplo, a presença de iniciativas de ‘comunicação científica’ e de ‘comunicação para a conservação’ na caixa de ferramentas dos conservacionistas. No entanto, apesar do investimento nessa área, é surpreendente a escassez de evidências sobre o grau com que essas ações causam as mudanças desejadas. Essa falta de avaliação de resultados costuma ser sintoma de um problema mais amplo: a falta de planejamento. O primeiro passo de um bom plano de comunicação é definir claramente o objetivo, perguntando-se ‘o que eu quero mudar com a comunicação?’ Nem sempre o comunicador científico ou conservacionista tem a resposta na ponta da língua. Se não sabemos precisamente onde queremos chegar, como poderemos dizer que fomos bem sucedidos? É preciso articular de forma clara e objetiva a mudança esperada e ser capaz de demonstrar tal mudança. O objetivo mais fundamental da conservação, qual seja, salvar espécies ameaçadas, pode ser vago demais quando se trata de mensuração do sucesso da comunicação e, em alguns casos, pode nem sequer ser o objetivo mais apropriado.

No âmbito da gestão das relações humano-fauna, por exemplo, quando o que é bom para um lado da relação não é necessariamente bom para o outro (pelo menos em alguma escala de tempo), ou seja, quando existe um conflito, o profissional de fauna deveria assumir o papel do mediador. O mediador de conflitos deve atuar como a terceira parte neutra. Se você mediar um conflito entre João e José apresentando-se como ‘amigo do João’, as chances de José cooperar diminuem significativamente e o conflito pode, inclusive, agravar-se. É um tiro no pé! A conservação, por definição, não é neutra: seus valores favorecem a um dos lados do conflito, o lado da fauna. Ainda que o conservacionista ético possa esforçar-se para evitar esse viés, é assim que a sociedade e, o que é pior, as pessoas envolvidas no conflito entendem as intenções do conservacionista. Como no caso do José, as pessoas afetadas por um conflito com animais silvestres não vão confiar num mediador do conflito que elas associam à conservação.

Diante desse cenário, um objetivo mais apropriado que a conservação é a coexistência. Como o próprio termo sugere – e as pessoas afetadas entendem – ‘co-existência’ não favorece a nenhum dos lados da relação em particular, mas enfatiza a relação em si. Quando essa relação envolve uma espécie ameaçada, a coexistência implica, claro, na conservação daquela espécie. Coexistência, portanto, é um objetivo que contempla a conservação, mas vai além. Os conflitos com fauna envolvem também espécies abundantes e exóticas, além de animais domésticos (por exemplo, capivaras, saguis, e cães e gatos errantes, respectivamente). Conservação não é um objetivo apropriado nesses casos, mas coexistência é. Por fim, pode-se argumentar que todo problema de conservação da fauna é, fundamentalmente, um conflito envolvendo algum grupo social que prioriza a fauna em detrimento dos interesses de outro grupo cujas atividades resultam numa ameaça a ela. Conservação e justiça social seriam dois lados da mesma moeda. O objetivo justo, uma vez mais, é a coexistência, nesse caso não somente entre humanos e fauna, mas também entre diferentes segmentos sociais e instituições. Portanto, em vez de comunicação para a conservação, uma abordagem mais promissora é a ‘comunicação para a coexistência’.

Comunicação para a coexistência pode então ser entendida como uma abordagem que reúne os seguintes atributos:

1. tem como objetivo explícito ‘causar mudança’, mais especificamente no sentido de melhorar, de alguma forma mensurável, a relação humano-fauna, sem priorizar necessariamente um dos lados da relação;

2. baseia-se em uma Teoria da Mudança, que é ‘uma metodologia de planejamento que torna visível o caminho necessário, desde o curto e médio prazo, para se alcançar uma mudança real no longo prazo’. Na prática, é uma mapa mostrando relações de causalidade: a diminuição na pressão de caça sobre a paca em uma comunidade rural da Amazônia é causada pelo aumento no consumo da fonte alternativa de proteína (o frango), que é causado pela diminuição na barreira ao seu consumo (a noção de que frango é alimento de segunda classe), que é causada pelo aumento no conhecimento sobre novas receitas saborosas de frango e pelo aumento na percepção de que ‘os outros’ comem frango. Outro exemplo: a diminuição no abate de onças-pintadas no entorno do Parque Nacional do Iguaçu é causada pelo aumento na tolerância a esses animais, que é causado pela diminuição no medo, que é causada pelo aumento no conhecimento sobre práticas de manejo que diminuem os riscos;

3. prioriza evidência invés de suposições. Nos dois exemplos acima, Willandia Chaves e coautores (Conservation Letters, 2017) e Yara Barros e sua equipe do Projeto Onças do Iguaçu, respectivamente, elaboraram suas teorias da mudança e implementaram as devidas estratégias de comunicação a partir de modelos conceituais das ciências do comportamento e também de resultados de pesquisa de campo invés de intuição ou achismos;

4. monitora e avalia os resultados, idealmente, em três níveis fundamentais. O primeiro é ‘produto’, que é o resultado gerado diretamente pelas ações. Exemplos de indicadores de produto são o número de downloads do podcast, de visualizações da postagem e de panfletos distribuídos. Quanto maior o número, maior o sucesso. É relativamente fácil de medir, por isso é o que a maioria dos projetos faz. O nível seguinte é o dos ‘efeitos’, que é a mudança que o podcast causa nos ouvintes. Não basta um monte de gente ouvir seu podcast se os ouvintes são todos da sua própria ‘bolha’ na internet. Para saber até que ponto você não está apenas pregando para convertidos, é preciso lançar mão de pesquisa social. Somente com uma base sólida de ciências sociais é possível, por exemplo, mensurar efeitos sobre a motivação, conhecimento, medo, percepção de risco e percepção de normal social (do que os outros estão fazendo). E por fim, o nível do ‘impacto’, que é o quanto o aumento no conhecimento (efeito) causado pelos podcasts (produto) se traduzem em uma mudança positiva de comportamento em relação à fauna.

5. destaca-se pela rapidez, criatividade e confiabilidade. Em face da explosão na quantidade e velocidade da informação, a comunicação para a coexistência deve lançar mão da criatividade e das tecnologias mais atuais a fim de, por exemplo, fazer frente ao canto da sereia das fake news: é preciso tornar as notícias sobre a tragédia dos atropelamentos ou do tráfico de animais silvestres mais atraentes e contagiantes do que a da ‘onça’ que mata o cachorro em Manaus. Acima de tudo, essa abordagem deve primar pela confiabilidade. A coexistência humano-fauna, a exemplo de outros desafios urgentes enfrentados pela humanidade, como o esgotamento de recursos naturais, mudanças climáticas e pandemias, exige ação coletiva cuja coordenação e adesão só são possíveis quando existe confiança na comunicação.

Em meio às más notícias da pandemia de Covid-19, estão inúmeras lições sobre o poder da comunicação em transformar nossas relações e promover a coexistência em seu sentido mais amplo.

Por: Silvio Marchini

Biólogo pela Universidade de São Paulo (USP), mestre em Ecologia, Evolução e Sistemática pela Universidade do Missouri-Saint Louis (Estados Unidos) e doutor em Conservação da Vida Selvagem pela Universidade de Oxford (Reino Unido). Tem pós-doutorado no Programa de Pós-Graduação Interunidades em Ecologia Aplicada ESALQ/CENA, da USP. É pesquisador associado no Departamento de Zoologia da Universidade de Oxford e ‘Conservation Fellow’ no Chester Zoo (Reino Unido)

Artigo originalmente publicado em: http://faunanews.com.br/2020/05/10/comunicacao-para-a-coexistencia-humano-fauna/#

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